Kuki Nage e o mito das “técnicas fingidas”

O nome não é muito comum, mas trata-se de técnicas bem conhecidas.  O nome Kuki Nage(arremesso no ar), refere-se a um pequeno grupo de técnicas de Te-waza que tem como ponto principal aproveitar o momento de desequilíbrio do oponente de tal forma que seja possível projetá-lo utilizando apenas as mãos, sem auxílio direto de outras partes do corpo como quadris, pés, ou pernas para varrer ou bloquear.

As primeiras formas de Kuki Nage foram desenvolvidas pelo sensei Kyuzo Mifune, 10º Dan, um dos alunos de Kano Shihan. Uma destas formas é hoje conhecida como Sumi Otoshi, a segunda, foi aprimorada posteriormente pelo sensei Keishichi Ishiguro e é hoje conhecida como Uki Otoshi. Na época, destacavam-se no Kodokan dois alunos que aplicavam com maestria estas técnicas em randoris. Eram eles Shuichi Nagaoka e Kaichiro Samura.

KyuzoMifune

Sensei Kyuzo Mifune, 10º Dan.

Para quem está começando no judô e ainda não conhece estas técnicas, vou deixar aqui dois vídeos para tirar dúvidas:

Uki Otoshi

Sumi Otoshi

Eu curto esses vídeos de Gokyo do Kodokan. Apesar de antigos, as técnicas continuam atuais e são executadas nos vídeos com perfeição. Excelente material pra tirar dúvidas. :)

Percebe-se que as principais diferenças entre elas são a direção e momento. Enquanto no Uki Otoshi, Tori executa kuzushi na diagonal frontal de ukê e o projeta nesta direção no momento em que ele avança um passo, no Sumi Otoshi, o Tori interrompe o passo frontal de Ukê, e neste momento executa desequilíbrio na diagonal para trás deste e projeta-o nesta direção. A pegada pode ser tanto a tradicional, manga e gola, quanto apenas pelas mangas.

O Uki Otoshi é a primeira técnica do Nage no Katá e como foi demonstrado no vídeo, no Katá ele é executado no terceiro passo de tsugui ashi com Tori baixando-se sobre um joelho e puxando firmemente o Uke na diagonal para baixo.

Muitas dúvidas surgem entre os alunos a respeito destas técnicas. Um dos meus certa vez me perguntou: “Sensei, a que momento devo pular para ajudar o Tori?”. A resposta foi: “Nunca!”. Nenhuma técnica de judô jamais necessita que o Ukê pule ou se jogue para ajudar o Tori a concluí-la. É um erro comum achar que Uki Otoshi, Sumi Otoshi e suas variantes são golpes conceituais, de enfeite, onde o Tori puxa e o Uke simula a queda… e que nunca acontecem em lutas de verdade. O fato é que muito ao contrário disso, estas são técnicas muito bem elaboradas que possuem kuzushi, tsukuri, kakê como qualquer outra e, se forem aplicadas com intensidade e momento certos, certamente projetarão seu adversário.

Para executarmos com perfeição um Uki Otoshi ou Sumi Otoshi, bem como suas variações, precisamos primeiro nos desfazer do mito de que são “golpes fingidos”. Depois é preciso praticar o kuzushi, o tsukuri e o momento exato do kakê projetando firmemente o Ukê com a força das mãos. No kakê, é preciso por energia de verdade na puxada para que o Ukê tenha uma queda com aquele arco bonito que acontece em um golpe bem feito.

O mesmo procedimento pode ser executado em todas as diferentes formas destas técnicas como Kouchigaeshi, Ouchigaeshi e Uchimata Sukashi. Antigamente estas variações eram todas denominadas Uki Otoshi ou mais genericamente Kuki Nage. Hoje já foram definidas como técnicas isoladas e existem vários métodos de treino para usá-las eficazmente em competições, principalmente através dos treinamentos de Kaeshi Waza.

Praticar os Kuki Nage desta forma com certeza irá aprimorar seu senso de tempo e aumentar a percepção do quanto o kuzushi correto é importante para uma projeção perfeita.

Obviamente não quero dizer que um Uki Otoshi deva ser a partir de hoje sua principal técnica nos randoris, mas quero desfazer o mito de que este é um golpe decorativo, que não funciona.

Não existe golpe ruim, existe apenas a habilidade de aplicá-lo no momento exato de uma luta. :)

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Algumas coisas que você provavelmente não sabia sobre o judogui

Quando se fala em artes marciais logo se pensa em um homem ou uma mulher vestindo uma roupa branca com uma faixa colorida na cintura.

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Dê um Google por “Artes Marciais” e você vai ver um monte de fotos dessas. :D

Talvez não fosse bem assim se o judô de Jigoro Kano nunca tivesse existido. Quase todos os uniformes das artes marciais modernas derivam do uniforme aprimorado por Kano para prática do judô. Isso mesmo, e além de ser o avô dos uniformes de luta, o judogui (como passa a ser chamada a vestimenta do judô) também foi o primeiro a introduzir o sistema de graduações com faixas coloridas. Claro que vamos falar mais sobre isso, mas vamos começar do início?

As Origens

É sabido que o jovem Jigoro, estudou várias ramificações do tradicional Jujutsu. Esta modalidade não tinha uma roupa específica para o treino, e comumente era praticada com o kimono mesmo. O kimono era uma roupa comum do dia a dia do japonês naquela época, e os que eram usados nos treinos de jujutsu eram basicamente compostos de um casaco comprido, sem mangas ou com mangas curtas; o Obi que era uma faixa larga para amarrar o casaco e para a parte de baixo uma hakama (um tipo de calça larga até os pés) ou um gobatake(uma espécie de bermuda que ia até as coxas). No fim era algo parecido com isso:

jujutsugi

Apesar de o judô, aikidô e karatê compartilharem raízes no Jujutsu, as técnicas selecionadas para criar cada nova arte são muito diferentes. Enquanto por exemplo no Karatê foca-se mais no estudo de ataques com mãos e pernas, o judô foca em projeções, imobilizações, estrangulamentos e chaves. E foi isso o que definiu as prioridades no desenvolvimento de um uniforme diferenciado para sua a prática.

A fim de que seus alunos pudessem trocar pegadas firmes para arremessar e estrangular, Kano percebeu que um uniforme adequado para prática do judô deveria ter um Wagui (casaco) feito de um tecido grosso, resistente às puxadas; o Shitabaki (calça) deveria ser comprido, também de material resistente; e o Obi, que até então era uma inconveniente faixa larga, passaria a ser uma faixa estreita de algodão. E foi assim que por volta de 1907, ele desenvolveu o judogui na forma que conhecemos hoje, e desde então, este mudou muito pouco.

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As maiores alterações posteriores foram sugeridas pela FIJ, para padronização em competições. Hoje o judogui é ainda um pouco mais comprido e mais largo, com estritas regras a respeito destas medidas para as competições oficiais.

Com a rápida popularização do judô no Japão, as novas artes que surgiram posteriormente como o Karatê e o Aikidô rapidamente perceberam a necessidade de padronizar um uniforme para a prática. Assim, a partir do projeto de Kano, fizeram suas modificações específicas, mas mantiveram o conjunto muito parecido. Casaco com mangas longas, faixa representando a graduação, calças compridas. Mais para frente também aderiram ao modelo várias outras artes marciais como o Hapkidô, Krav Magá, Taekwondô, o Jiujitsu brasileiro e dezenas de outras.

O sistema de graduações

Nos dias antes de Kano ter criado o judô, não havia nenhum sistema de classificação de dan/kyu nas artes marciais. O método de reconhecer o grau de um aluno era através da apresentação de certificados ou pergaminhos emitidos pela escola da arte em que ele treinava. No princípio do judô, Kano também seguia a mesma regra, mas quando o Kodokan começou a crescer em número de alunos, ele viu a necessidade de dividir os mais velhos e mais experientes dos iniciantes. Foram separados então em mudansha, sem graduação; e yudansha, grupo dos graduados. Em 1883 Kano graduou seus primeiros Shodan: Shiro Saigo e Tsunejiro Tomita. Mas os mudansha e yudansha ainda não tinham diferenciação pela cor da faixa, somente pelo título. Isso só aconteceu em 1886 quando Kano permitiu que os Shodan usassem uma faixa preta, que era ainda uma faixa larga de cetim, a mesma usada em kimonos, pois o judogui moderno ainda não havia sido inventado.

Por volta de 1930 Jigoro Kano criou uma nova faixa para reconhecer as realizações especiais de faixas pretas de alto nível. Jigoro Kano escolheu reconhecer o sexto, sétimo e oitavo graus da faixa preta com um obi especial com as cores vermelho e branco alternadas. A cor branca foi escolhida para a pureza, e a vermelha para o intenso desejo de treinar e pelos sacrifícios feitos. Ele também criou a faixa vermelha para reconhecer 9º e 10º dans. Note que aqui ficou esclarecido o motivo das cores escolhidas, e há registros disso. Voltaremos a comentar a respeito ao falar sobre as cores dos judoguis mais a frente.

Em 1935 quando o sensei japonês Mikonosuke Kawaishi ensinava judô na França, este teve a percepção de que nós ocidentais precisamos de algo mais palpável para nos sentirmos motivados num trajeto de longo aprendizado, principalmente quando se trata de crianças, e por isso, desenvolveu um sistema de sub graduações chamados Kyu, com cores para cada etapa. Estas graduações tiveram as primeiras sequências de cores na seguinte ordem: amarela(5º kyu), laranja(4º kyu), verde(3º kyu), roxa(2º kyu) e marrom(1º kyu). No Brasil por volta da década de 1970 foi criada a faixa azul antes da amarela. A partir dos anos 2000, com o forte crescimento do judô e com crianças começando a treinar cada vez mais cedo, houve também a necessidade de se criar mais sub graduações, como a faixa cinza, e recentemente, em 2011 foram criadas as faixas branca com ponta cinza; cinza com ponta azul; azul com ponta amarela; amarela com ponta laranja.

Judogui Branco e Judogui Azul: a grande treta

Há sempre muita especulação e controvérsia sobre as cores dos judoguis. A primeira delas é – “Por que o judogui tem que ser branco?”. Para responder a questão, muito se justifica a necessidade da cor branca falando sobre a pureza da mente, sobre a cor da bandeira do Japão ou sobre as roupas de baixo do Samurai em combate que eram brancas. O problema é que, diferentemente da escolha das cores para as faixas de 6º dan em diante, Jigoro Kano nunca revelou nenhum motivo especial para que o judogui fosse branco. Os primeiros judoguis eram brancos provavelmente porque era a cor do algodão cru do qual eram feitos. Eles são brancos e devem ser brancos até hoje porque japoneses desde sempre são tradicionalistas e conservadores. Por isso o judogui branco é regra. Para que a tradição seja preservada.

Em 1986 o judogui azul foi sugerido pelo atleta campeão mundial Anton Geesink. O objetivo da nova cor era ajudar os árbitros na distinção dos atletas nos combates oficiais e facilitar o entendimento das lutas transmitidas pela TV para os leigos. Antes dele, os oponentes eram diferenciados apenas por uma faixa vermelha amarrada sobre a faixa principal em um dos judocas. A sugestão do judogui azul foi aceita plenamente apenas por volta de 1997 após muitos anos de contestações, e com a ressalva de que o uniforme azul é indicado somente para uso em competições oficiais.

A outra controvérsia trata justamente de usar ou não usar judogui azul em treinos ou competições não oficiais. Alguns acham praticamente intolerável um aluno comparecer a um treino de judogui azul. Por outro lado há senseis totalmente liberais que permitem que alunos treinem com judogis de qualquer cor.

Se houver um meio termo entre eles eu estarei lá. Hoje eu tenho três judoguis brancos.. nenhum azul porque já faz um tempo que não participo de shiais oficiais. O que eu tinha acabei doando. Eu particularmente acredito que estar de branco principalmente em cerimônias, em katás e em treinos com convidados especiais é de suma importância para a manutenção da tradição do esporte. Mas de toda forma, já vi de perto projetos sociais em que dezenas de crianças compartilham os mesmos uniformes e se fossem todos brancos ficaria absurdamente mais difícil mantê-los limpos.

Perceba a diferença abissal entre uma criança carente que não tem condição de adquirir nem mesmo um judogui branco e precisa treinar com o uniforme “da casa”, e um marmanjo que tem os dois mas só usa o azul nos treinos por preguiça de lavar. Nesse caso, o melhor juiz é o bom senso.

Meus 10 centavos sobre tradicionalismo…

Durante as pesquisas para este artigo, vi num fórum um sensei dizendo que na academia dele é permitido qualquer cor de judogui. Outro dia também vi um sensei falar que não exige que se faça o Rei inicial e final ajoelhado e nem que haja um quadro de Jigoro Kano na parede, e por último também conheci um outro sensei que não usava wagui e obi nos treinos, somente a calça. Aí eu fico imaginando que curioso seria se todos estes professores se juntassem e dessem aulas pra uma turma durante um ano. Será que se fizéssemos uma visitinha depois desse tempo veríamos algo parecido com judô? Receio que não.

Não sou inflexível a ponto de não permitir que um aluno treine de azul em meu dojô, até porque o judogui azul já faz parte do judô e chegou pra ficar. Mas não critico de forma alguma o sensei que segue à risca as regras, afinal ele não está errado. São as regras, e elas servem justamente para proteger uma tradição inteira de interferências e distorções individualistas de algumas pessoas.

Não se deve achar que o judogui branco é obrigatório simplesmente porque o Kodokan não achou o azul “fashion o suficiente”. Há apenas uma atenção para que os valores e princípios da arte não comecem a se perder em meio a estas pequenas distorções. Hoje, do outro lado do globo, e há mais de 100 anos da criação do judô por Kano, nós brasileiros mantemos a tradição de começar um treino com um Rei e terminar com um Rei, de saudar-nos com uma respeitosa vênia antes e depois das lutas, de cultivar as falas e nomes de golpes em japonês afim de prezarmos pelos valores inerentes à arte. Isso é judô. Qualquer coisa que começa a ficar muito diferente disso, com toques pessoais e arbitrários sobre o que vale ou não vale a pena preservar pode por tudo a perder.

Algumas curiosidades

  • O judogui que Jigoro Kano usava pra treinar está guardado em exposição no museu do Kodokan.
Judogi-Kano

Meio baqueado, mas tá valendo!

  • Em 2007 foi realizado um estudo para verificar se atletas que usam judogui azul têm maior probabilidade de vitória em competições.

Foi notado que nas competições anteriores houveram mais vitórias do lado azul que do branco, por isso foi feito o estudo. O objetivo era saber se a cor poderia resultar em alguma influência psicológica sobre os atletas, alterando o resultado em favor do azul. Na conclusão, ficou constatado que os atletas homens que usaram judogui azul tiveram um número considerável a mais de vitórias em relação aos que usaram apenas branco. Mas não houve nenhuma diferença quanto as atletas mulheres. Há fortes indícios de que a cor azul provoca sim efeitos psicológicos diferenciados nos atletas do sexo masculino.

Segue um link do estudo na íntegra(em inglês): http://goo.gl/g5xrjT

  • A primeira empresa a fabricar judoguis é hoje conhecida como KuSakura. São produtos de altíssima qualidade. Difíceis de encontrar no Brasil.
judogi-kusakura

Com altíssima qualidade, geralmente vem altíssimo preço. Eles custam uma pequena fortuna por aqui.

  • Antes do judogui, as roupas de luta eram as vezes, um tanto quanto… “estilosas”.
Sadakazu Uyenishi

Sadakazu Uyenishi sensei. Um famoso lutador e professor de Jujutsu.

Conclusão

Percebemos que a longa história e legado do judogui vai muito além da eventual discussão branco versus azul. Acima disso, deve-se o respeito à tradição. O que passar deve ser julgado pelo bom senso. Tenho certeza que se você não conhecia estes fatos, vai agora cuidar muito melhor de seu judogui!

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De que forma o judô tem beneficiado sua vida? 

Você já parou pra refletir sobre todos os benefícios que o judô trouxe para sua vida direta ou indiretamente?

Antes de começar devo pedir desculpas aos leitores pelos praticamente 15 dias sem postar no blog. O real motivo de não ter postado vocês saberão nesse artigo mesmo.

Voltando ao assunto, a maioria das pessoas começa a praticar uma arte marcial simplesmente pra fazer alguma atividade física. Sair do sedentarismo. Foi assim comigo.

“Vai lá moleque, vai fazer esse tal judô pra ver se você sai um pouco desse videogame.”
 – Minha mãe.

Muita gente pensa na defesa pessoal, pensa em emagrecer, pensa em por o filho porque ouviu falar que tem disciplina… Mas pouca gente sequer imagina que praticar uma arte marcial como o judô pode mudar os rumos da sua vida completamente e definitivamente.

Pouca gente imagina isso porque até um primeiro contato é difícil para nós entendermos como os orientais, principalmente os japoneses, conseguem incutir uma filosofia de vida em um esporte. Nós brasileiros somos tão alheios a isto que normalmente confundimos esta abordagem como sendo algo religioso, o que não é. Costumamos pensar que viver a filosofia de vida de um esporte é uma afronta ao cristianismo, quando na verdade é complementar a ele, pois os valores prezados no judô e nas artes japonesas (humildade, amizade, respeito, honestidade, etc.) são os mesmos prezados na religião cristã.

Destes valores, a amizade pra mim é o que faz toda a diferença em dizer que o judô não é meramente um esporte. Aquele ambiente de camaradagem que você vê na turma, certamente garante que as pessoas não estão ali só pra emagrecer e cair fora. É muito mais do que isso.

Com as turmas de judô que trabalho hoje, sempre procuramos estimular esta camaradagem entre os alunos, dentro e fora do tatame. Para os que já têm idade, incentivamos que visitem uns aos outros, que joguem bola juntos, que se divirtam fora dos treinos. Os pais destes alunos acabam se conhecendo também e assim o círculo e o vínculo aumentam. Recomendo que outros senseis também façam isso. Se você é professor, experimente fazer treinos com dinâmicas para fortalecer o trabalho em grupo, estimule o espírito de equipe ao levá-los pra uma competição e organize um passeio uma vez por ano em algum lugar legal se for possível. Com o tempo verá que fica até mais fácil dar aula, e esse ambiente de amizade favorece muito para que os novos alunos também se sintam acolhidos. Jamais estimule rixas entre seus alunos, mesmo que momentaneamente em randoris, este sentimento não soma nada à questão proposta.

E por falar em amizade, posso dizer que de dez grandes amigos que tenho, pelo menos cinco deles treinaram judô comigo por um bom tempo. Mas aqui deixe-me definir “amigo” e “grande amigo”. Amigo é aquele que vai na sua casa e pede licença pra entrar, fica na sala com você conversando enquanto toma algo que você educadamente ofereceu e depois de uma hora no máximo, vai embora. Já o grande amigo é aquele que entra na sua casa pela cozinha mesmo, abre a geladeira pra pegar o que quiser e as vezes você tem que mandar ele ir embora, senão, dorme lá :D

Quando os conheci, o que me animava pra treinar não era o treino em si. Quase sempre era a turma reunida antes das aulas ou depois delas, conversando sobre várias coisas. O mesmo acontecia depois das competições, quando íamos na casa de um ou outro pra falarmos sobre os golpes que fizemos ou deixamos de fazer, tirar sarro das derrotas uns dos outros e por fim ver as fotos tiradas no dia. E pra falar a verdade, essas resenhas pós-treino e reuniões nas casas dos amigos acontecem com a gente por aqui até hoje!

Considero estes meus grandes amigos uma benção que Deus me deu através do judô. Mas não foram só amigos que consegui. Hoje levo judô como trabalho, e melhor de tudo, foi num tatame que conheci minha esposa, e além de tê-la como presente, tenho também agora a maior joia da minha vida: meu filho, que nasceu há alguns dias :D

Daí então concluo minha justificativa de passar esses dias todos sem atualizar o blog. Ele está em casa há pouco tempo e conciliar o trabalho com algumas noites mal dormidas deu uma atrasada em uma série de projetos. Por fim, já estamos conseguindo por a rotina em ordem novamente e logo teremos mais novidades por aqui.

Termino então este post com basicamente a mesma pergunta que comecei:

De que forma o judô tem beneficiado sua vida? 

;)

Você sabe como é feito um tatame?

Normalmente em português escrevemos tatame, mas a pronúncia correta é tatami. Este termo deriva do verbo tatamu, que significa dobrar ou empilhar, muito provavelmente porque no início, os tatames eram um piso que caso não estivesse em uso poderia ser dobrado ou empilhado.

Originalmente os tatames eram um item de luxo exclusivo da nobreza. Com o passar do tempo, gradualmente tornou-se acessível e comum em todas as casas no período Muromachi, principalmente também pela popularização da Cerimônia do Chá.

Existem regras de etiqueta para o uso de tatames. Desde a forma como são dispostos na sala até a forma de andar sobre eles. Por exemplo, não é educado pisar calçado sobre eles. Andar pisando nas bordas entre um e outro também pode soar grosseiro.

Um tatame tradicional é feito de basicamente três componentes: o material da superfície denominado tatami-omote; o núcleo denominado tatami-doko e uma borda de acabamento denominada, tatami-beri. A esteira da superfície é tecida com folhas de uma espécie de junco chamada igusa, uma planta usada na confecção de textêis no japão há pelo menos dois mil anos.

igusa

Uma linda plantação de Igusa.

O núcleo é feito comumente de palha de arroz compactada, pois esta oferece um perfeito grau de firmeza e também é muito durável.

rice-straw-core

Por último, a borda, feita de seda, linho ou algodão, além de dar o toque de requinte à peça, serve para prender o núcleo à superfície de esteira.

tatami-beri

Agora que você sabe do quê os tatames são feitos, veja um vídeo bem legal de como eles são feitos:

Na época em que Jigoro Kano treinava, os tatames eram exatamente assim. Hoje em dia, um tatame desses custa uma pequena fortuna por aqui, tornando absurdamente custoso manter um dojô de um tamanho razoável. Além da difícil manutenção, tem também o fato de que a palha da esteira dava algumas queimaduras se friccionada contra a pele. Ralar a cara na palha lutando não devia ser um negócio legal…

Aqui no Brasil, quem é das antigas no judô, deve se lembrar de tatames confeccionados também com núcleo de palha de arroz, mas recobertos com tecido, no lugar da esteira de igusa. Competi algumas vezes quando a FPJ ainda tinha alguns tatames desses… Nossa, cara, era triste cair neles! Parecia concreto! Faz muito tempo que não vejo mais desses, mas segundo os mais experientes, os tatames oficiais eram assim por aqui desde a década de 60.

Os tatames oficiais de hoje são um compensado de espuma, recobertos com uma lona que imita a textura da igusa do tatame tradicional. Algo parecido com isto, numa visão recortada:

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Já nos dojôs locais, era comum até não muito tempo atrás, o tatame todo ser uma grande área cujo núcleo era feito com raspas de pneu e coberto com uma lona. Aprendi judô num tatame desses. Era gostoso de cair, mas em alguns lugares as raspas de pneu ficavam mais socadas, e aí também ficava complicado. Ainda existem muitos dojôs de raspa de pneu com certeza, mas a grande sacada agora é o tal do E.V.A.

O Etil Vinil Acetato é uma resina termoplástica derivada do petróleo. O baixo custo de produção desta borracha a torna muito útil para diversas aplicações, inclusive para a fabricação de tatames. Os tatames de E.V.A. recomendados para prática de judô têm no mínimo 30mm de espessura para melhor absorção de impacto e costumam já ter os encaixes tipo “quebra-cabeças” pra facilitar a montagem. Embora este material seja relativamente barato e prático, infelizmente não possui uma vida útil muito longa se não for muito bem cuidado. Se for montado e desmontado todo treino, com certeza não vai durar muito. Eu particularmente acho que os tatames de E.V.A. (pelo menos todos que treinei até hoje) não possuem uma rigidez adequada pra que as quedas do judô sejam executadas da melhor forma. Eles têm muito rebote, isso é, você “quica” muito quando cai. Outra coisa que me incomoda, é que eles também não oferecem um deslize fluido para o tsuri ashi, o passo arrastado do judoca. Se você pratica katás num tatame desses deve saber do que estou falando ;)

Apesar de tudo, se tem uma coisa que posso falar com toda convicção sobre qualquer tipo de tatame é que, sem eles, praticar judô seria no mínimo, muito mais doloroso! :P

E você, qual sua experiência com tatames? Chegou a treinar naqueles de palha também? Gosta mais dos oficiais ou acha melhor estes de E.V.A.? Deixe seu comentário!

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As vezes tudo o que a gente precisa é de uma pausa

“A vida necessita de pausas.”

Carlos Drummond de Andrade

Teve uma época que eu precisei parar meu judô. Não foi exatamente falta de motivação, mas confesso que por um certo tempo fiquei bem desanimado e desapontado com meu desempenho no esporte. Vou compartilhar com vocês essa história de uma forma bem resumida:

Comecei a aprender judô já um pouco tarde da adolescência, lá com meus 14 para 15 anos, e como todo bom sonhador (que mal tem?), acreditava em seguir uma carreira competitiva, conquistando títulos paulistas, brasileiros, mundiais.

Infelizmente fiquei longe disso.

Sei que eu não lutava mal, mas, os caras que ganhavam, aqueles que estavam no topo (entre eles na minha categoria, Felipe Kitadai, antes da Seleção), eles sim treinavam pra isso. Nem fico me lamentando, afinal eu mais sonhava do que treinava.

Enfim, chegou então a hora de trabalhar. Aliás, desde os 15 já fazia alguma coisa pra poder pagar minhas despesas do judô porque minha mãe sozinha não podia.. Mas agora eu precisava mesmo de um emprego fixo, e os horários determinados me impediam de treinar. Aposentei meu judogui por longos 3 anos.

Logo quando foi dando aquelas primeiras saudades do treino, eu realmente me perguntava… O que eu faria no judô se já estava tão desanimado e não me interessava competir?

Quando me dava muita saudade, eu via vídeos, daqueles de “melhores ippons”, mas com o tempo comecei a ver conteúdos não só de lutas e técnicas, mas também sobre história do judô, do jujutsu, seus valores e filosofias. Conheci os katás e me interessei muito por eles também. A saudade só aumentava e aumentava, até que finalmente consegui uma brecha na agenda pra treinar.

A primeira vez de volta ao tatame é como pisar nas nuvens. Os primeiros rolamentos, quedas e golpes saem meio quadrados, mas a sensação é maravilhosa. Enfim voltei ao treino vendo o judô de forma totalmente diferente. Pude adaptar minhas metas e criar novas. Com a mente aberta aprendi muito mais tanto teoricamente quanto tecnicamente também.

Talvez você esteja lendo e se identificando com algumas partes dessa história. Muita gente que por algum motivo não consegue seguir a carreira como atleta, é chamado pela vida para os estudos, para o trabalho, para a família ou para outra coisa. Quase sempre isso pede uma pausa da prática do esporte. Mas acredite, se o judô já entrou de vez na sua vida, mesmo parado, você não estará fora dele!

Longe de mim dizer aqui que você então deve seguir o mesmo caminho que eu, mudando toda sua concepção de treino, ou parar de pensar em shiais para treinar apenas katás. O ponto exato onde quero chegar é que, as vezes a pausa, mesmo contra nossa vontade, é a solução pra muitos problemas. Talvez essa pausa seja a coisa mais importante a se fazer pra recobrar as energias, amadurecer as ideias e ver as coisas como são do lado de fora.

O que o mestre Jigoro Kano fez ao alterar o sufixo jutsu(arte) para dô(caminho) parece algo simples e com pouco sentido, mas na realidade teve um impacto muito forte. Veja que arte refere-se à atividade do artista, e no caso específico do artista marcial remete ao movimento e ação diretamente ligados a prática desta arte. Enquanto isso, o Caminho, é uma via que transcende os limites da ação, da estética e do método. Ele pode ser trilhado de infinitas maneiras, até mesmo, quando você pensa estar fora dele.

Portanto, se a vida lhe pedir  uma pausa – caso ainda não o tenha feito – lembre-se que há muitas maneiras de continuar no Caminho. Talvez você possa se especializar estudando arbitragem e até arbitrar em competições eventualmente, talvez sua profissão possa ter algo pra ajudar- como um programador que desenvolveu um app de judô para celular ou um fisioterapeuta que desenvolveu melhores práticas de tratar lesões comuns do esporte – enfim, as possibilidades limitam-se à sua criatividade. Oportunidades são muitas, pra você ver… dá até pra tentar contribuir escrevendo um blog. ;)